Área do participante
recuperar senha Voltar

                                            
 Alexander von Humboldt, em pintura de Friedrich Georg Weitsch, 1806.
 
Mais influente naturalista viajante de seu tempo e considerado o último polímata, Humboldt lançou as bases para as geociências modernas, especialmente a Geografia, além da Ecologia, materializando e instrumentalizando a concepção de integração dinâmica das esferas da natureza, e nos deu a ideia da natureza propriamente dita: "Vou coletar plantas e animais, medir a temperatura, a elasticidade, o magnetismo e a eletricidade na atmosfera, analisá-los, determinar longitudes e latitudes geográficas, medir montanhas. Mas este não é o objetivo principal da minha viagem. Meu real e único propósito será investigar as ligações e a interação entre as forças naturais e ver como o mundo natural inanimado exerce sua influência sobre animais e plantas".

Os relatos de viagem e demais obras de Humboldt tornaram a história natural acessível a milhões e influenciaram Martius, Spix, Burmeister, Rugendas, Julio Verne, Aldous Huxley, Edgar Allan Poe, Henry David Thoreau, Simón Bolivar, Gabriel Garcia Marquez. O rei prussiano Guilherme IV declarou que Humboldt fora "o maior e mais formidável de todos os homens desde o Dilúvio". Humboldt conviveu com Goethe e Abraham Werner, relacionou-se com Cuvier, Lund e recomendou Darwin. Ajudava jovens como Agassiz, o matemático Fredrich Gauss e o botânico Joseph Hooker, e difundiu o trabalho de Nicolaus Steno, até então obscuro e em seguida considerado o fundador da geologia. Por suas cartas de recomendação, Humboldt regia o destino de cientistas de todo o mundo1.

                                
Os irmãos Wilhelm e Alexander von Humboldt e Johann Wolfgang von Goethe no jardim de Friedrich Schiller em Jena, na atual Alemanha. Wikimedia, Public Domain.

Humboldt também foi um cartógrafo inovador. Seus mapas detalhados aumentaram a autoestima das colônias espanholas, dando fronteiras reaises a esses países que em breve se tornariam independentes. Ao olharmos para os mapas da porção setentrional da América Latina de hoje estamos olhando diretamente para a visão de Humboldt. Esse interesse no mapeamento o levou a se tornar o primeiro a perceber como a distribuição da vegetação é governada pelo clima. Foi também o primeiro a perceber a equivalência entre as mudanças de latitude e altitude, a registrar o gradiente latitudinal da diversidade e a demonstrar a relação entre área e riqueza de espécies. No Brasil, talvez pelo fato de a coroa portuguesa tê-lo impedido de adentrar o território, talvez por suas denúncias do colonialismo e da exploração econômica do meio ambiente e dos seres humanos, sobretudo indígenas e escravos, Humboldt, infelizmente, não é reconhecido como o é na América hispânica. E sua contribuição à Paleontologia é quase esquecida, o que motiva ainda mais esta lembrança.

                         
Humboldt e o botânico Aimé Bonpland, na planície de Tapia, no Equador, em frente ao vulcão Chimborazo, a maior montanha do mundo em relação ao centro da Terra. Aquarela de Friedrich Georg Weitsch (1810).
 
Em sua viagem de 1799 a 1804 à América hispânica, Humboldt recolheu amonitas, gastrópodes e bivalves cretácicos em depósitos no Peru, Equador, Colômbia e Venezuela, descritos em 1838 por seu colega Léopold de Buch (alguns em sua homenagem) e coletou carvões em depósitos calcários localizados em altitudes acima da vegetação corrente, ressaltando este registro como um indicador de mudanças climáticas no passado. Dentes de mastodontes quaternários encontrados por ele no Equador acima de 2.600 m de altitude, e no Chile, foram enviados para a França, para serem estudados por Cuvier. Este descreveu o espécime chileno em 1824 como Mastodon humboldtii, homenageando Humboldt. Ironicamente, a complicada história taxonômica dos proboscídeos sul-americanos levou a revisões que, involuntariamente, inverteram a homenagem pretendida. Os espécimes descobertos por Humboldt nos Andes são hoje atribuídos a Cuvieronius, gênero criado pelo norte-americano Henry Fairfield Osborn em 1923 em homenagem a Cuvier, e contendo uma única espécie, Cuvieronius hyodon (Fischer de Waldheim, 1814)2. Mas não faltam homenagens, haja vista que Humboldt é a pessoa na história com o maior número de espécies e acidentes geográficos dados em sua honra.

            
Os mastodontes sul-americanos Notiomastodon platensis e Cuvieronius hyodonBran-Artworks, DeviantArt.

Em sua grande obra, Cosmos, Humboldt discutiu sobre "elos perdidos" que poderiam ser encontrados como fósseis e auxiliariam o entendimento da distribuição geográfica das biotas. Na Europa, estudando a geologia das Montanhas Jura (Alpes Ocidentais), Humboldt reconheceu uma sucessão que não havia sido incluída no arranjo estratigráfico vigente estabelecido por Abraham Gottlob Werner e a nomeou em 1799 como "calcários Jura" (Jura - Kalkstein ), a qual se tornou a base para o posterior estabelecimento do sistema e do período Jurássico. Seu discípulo Friedrich Sellow empreendeu importantes coletas de rochas e carvões no sul do Brasil e, em 1825, enviou para o Museu Imperial e Nacional do Rio de Janeiro restos de gliptodontes e preguiças coletados na então Província Cisplatina, constituindo o primeiro acervo de fósseis do Museu Nacional 3 .

                            
Humboldt em sua Biblioteca. Aquarela de Eduard Hildebrant, 1856.

Ao notar que as biotas não possuem uma distribuição universal e ressaltar os nichos climáticos, fez apontamentos à Correlação Fossilífera cuvieriana. Apesar de admirar o monumental trabalho de Cuvier, Humboldt não se impressionou muito com o catastrofismo, e foi um "darwinista pré-darwiniano" que, por muitíssimo pouco, não testemunhou a revolução que estava por vir. O pensamento ecológico humboldtiano inspirou Darwin e contrapunha-se ao pensamento fisiológico de Cuvier, para quem o entorno estava relacionado apenas ao ambiente físico no qual o organismo estava inserido, pouco importando a existência de outras interações ecológicas, o que decorria da escassa preocupação de Cuvier com o meio ambiente. A visão de Humboldt de que as forças geológicas e o curso da vida estão inter-relacionados no espaço e no tempo, e que a ação humana tem o alcance de uma catástrofe natural, remete-nos ao próprio conceito do Antropoceno. Já em seu tempo, mas especialmente na atualidade, a visão integrada e interdisciplinar de Humboldt para a natureza e a ciência é tudo o que precisamos para compreender e evitar as possíveis catástrofes decorrentes das mudanças climáticas.

1 Wulf A. 2016. A invenção da natureza – A vida e as descobertas de Alexander von Humboldt. São Paulo: Editora Planeta. 600 p.
2 Mothé D et al. 2017. Sixty years after 'The mastodonts of Brazil': The state of the art of South American proboscideans (Proboscidea, Gomphotheriidae). Quaternary International, 443 (A): 52-64.
3 Paula Couto C. 1948. Sobre os vertebrados fósseis da coleção Sellow, do Uruguai. Boletim do Departamento Nacional da Produção Mineral, Divisão de Geologia e Paleontologia, 125: 1-14.