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Maria Martha Barbosa, aos 30 anos, durante trabalho de campo do II Congresso Brasileiro de Paleontologia, em 1961. 
Acervo Pessoal.

 
Maria Martha Barbosa, professora aposentada do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, personifica a força da mulher paleontóloga. Durante sua graduação em História Natural na Faculdade Nacional de Filosofia, Ciências e Letras da então Universidade do Brasil, ela e sua colega de turma, Diana Mussa, entusiasmaram-se com as aulas de Paleontologia ministradas pelo professor e malacólogo Júlio Magalhães e por sua assistente Nicéa Magessi Trindade, na Cadeira de Geologia. Aos 24 anos, assim que se diplomou Bacharel em História Natural (1955), ingressou no Departamento de Geologia e Paleontologia do Museu Nacional como estagiária e orientanda do professor Emmanoel Azevedo Martins. Ele propôs um desafio: estudar os briozoários fósseis preservados como incrustações em moluscos provenientes da Formação Pirabas, no Pará. Esses moluscos tinham sido estudados pela nova iorquina Carlotta Joaquina Maury (1874-1938), paleontóloga do Serviço Geológico e Mineralógico do Brasil (atual CPRM), mas os briozoários que portavam eram inéditos. Dada a virtual ausência de informações sobre briozoários fósseis no país, bem como de especialistas no grupo, aquela não foi uma tarefa fácil. Estava, no entanto, à altura da intrepidez de Maria Martha Barbosa que, de pronto, pôs-se a trabalhar. Envolveu-se também em uma revisão dos briozoários paleozoicos coletados no Pará pela Comissão Geológica do Império, e pouco depois, e 1957, publicara seu primeiro artigo no tema1. Em seguida, já descrevia as suas primeiras espécies da Formação Pirabas: Lunulites pirabicus Barbosa, 1959 e Stegionoporella pirabensis Barbosa, 19592,3.

A capacidade de trabalho de Maria Martha Barbosa a levou a ser contratada como Naturalista do Museu Nacional, e passou a ser colega de seu orientador, além dos paleontólogos Cândido Simões Ferreira, Nei Vidal, Fausto Luiz de Souza, Carlos de Paula Couto e José Henrique Millan. Desse modo, era a única mulher do Departamento de Geologia e Paleontologia além de Diana Mussa, o que as tornou
muito unidas (também por terem sido colegas de graduação). Em 1958 ambas se juntam às outras paleontólogas pioneiras (Lélia Duarte da Silva Santos, Maria Eugênia Marchesini Santos e Nicéia Maggessi Trindade) para, ao lado de onze paleontólogos, fundar a Sociedade Brasileira de Paleontologia. Atualmente apenas as fundadoras Maria Martha Barbosa e Maria Eugênia Marchesini Santos estão entre nós.

No ano seguinte, em 1959, Maria Martha Barbosa foi uma das organizadoras e participantes do I Congresso Brasileiro de Paleontologia, ocorrido no Rio de Janeiro. E em 1961 colabora também na organização do II Congresso Brasileiro de Paleontologia (Mossoró-RN), ao lado do agrônomo Jerônimo Vingt-un Rosado Maia (1920-2005). Desde 1959, Maria Martha Barbosa já trocava correspondências com o intelectual mossoroense, e ele aportou-lhe todo o apoio necessário para realizar prospecções nos depósitos cretácicos da Bacia Potiguar. Com isso, no dia 17 de julho de 1961, Martha ministra uma palestra intitulada Briozoários Fósseis do Rio Grande do Norte no
II Congresso Brasileiro de Paleontologia. Também participa da condução de um trabalho de campo pós-congresso em afloramentos costeiros localizados entre o município potiguar de Tibau e o município cearense vizinho, Aracati (parte da atual "Rota das Falésias"), afloramentos que à época eram pensados como tendo idade terciária. Essa excursão foi motivada pela suposta ocorrência de amonóides na praia aracatiense de Retiro Grande, segundo informação dada previamente pelo paleontólogo alemão radicado em Pernambuco, Karl Beurlen. A 35 quilômetros a leste de Aracati, com a caminhonete ainda em movimento, o paleontólogo Elias Dolianiti, então presidente da Sociedade Brasileira de Paleontologia, avistou um afloramento que julgou promissor, e o trabalho foi ali realizado. Naquele 24 de julho de 1961 constatou-se não apenas a ocorrência dos amonóides e a consequente idade cretácica dos afloramentos, como foi encontrado o exemplar que, ali mesmo, foi escolhido como o símbolo da Sociedade Brasileira de Paleontologia. Anos depois, o espécime tornou-se o holótipo da espécie nomeada pelo paleontólogo Paulo Erischen de Oliveira em homenagem ao engenheiro de minas (de mineração e de Minas Gerais) Luciano Jacques de Morais: Coilopoceras lucianoi Oliveira, 1969. Maria Martha Barbosa e os demais congressistas (menos de trinta) hospedaram-se naquela noite na residência da família Rosado em Tibau e ali elegeram a 4a direção da Sociedade Brasileira de Paleontologia (Llewellyn Ivor Price, Sérgio Mezzalira, Lélia Duarte e Cândido Simões Ferreira)4.
 
O amonita Coilopoceras lucianoi integrando o simbolo da Sociedade Brasileira de Paleontologia desde 1961.
 
Em 1966 Maria Martha Barbosa ingressa no Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e Científicas no Brasil como representante do Museu Nacional. Este Conselho, criado durante o governo de Getúlio Vargas e que funcionou de 1933 a 1968, atuava autorizando e acompanhando as expedições de viajantes nacionais e estrangeiros dentro do território brasileiro, e fiscalizando a remessa de material cultural e científico para o exterior. Ao longo dos trinta e cinco anos de sua vigência e 56 membros que atuaram na composição do Conselho, apenas sete foram mulheres, o que reflete a forte marca do masculino no processo de profissionalização das ciências.

Por muito tempo, a presença feminina nas ciências era vista como uma contradição: como cientistas, as mulheres eram atípicas; como mulheres, elas não serviriam para a área
5. A falta de direito à propriedade intelectual também fez com que os registros da participação feminina em pesquisas e invenções científicas permanecessem no nome de seus pais, maridos ou outros homens, tornando as mulheres invisíveis nessa documentação. Na contramão desta visão estavam Maria Martha Barbosa e sua grande amiga e companheira de instituição, Bertha LutzMartha e Bertha compunham uma formidável dupla, coordenando juntas o Círculo de Palestras Culturais do Museu Nacional, evento de divulgação iniciado em 1956 e um dos poucos espaços de divulgação científica no país à época a dar palco e local de fala às mulheres na ciência. Zoológa, Bertha desenvolveu um trabalho totalmente independente daquele realizado por seu pai, Adolpho Lutz, demonstrando assim suas próprias concepções sobre ciências e sobre o desenvolvimento das instituições científicas. Como ativista desde estudante, e como política, Bertha Lutz tornou-se a mais importante feminista da história do Brasil, e uma das maiores do mundo, tendo Martha como importante apoiadora e colaboradora.
 
Maria Martha Barbosa é efetivada como professora adjunta do Museu Nacional em 1969, passando a lecionar Paleozoologia no curso de Mestrado em Zoologia (posteriormente Programa de Pós-graduação em Ciências Biológicas - Zoologia), criado em 1972. Ela construiu no Museu Nacional uma sólida carreira científica versando sobre os briozoários fósseis, com destaque para as coletas e estudos feitos na miocênica Formação Pirabas no Pará, no Cretáceo da Formação Jandaíra no Rio Grande do Norte e Ceará e no Pleistoceno do Rio Grande do Sul, bem como realizou revisões e estudos inéditos de briozoários do Carbonífero de Formação Itaituba coletados no Pará pela Comissão Geológica do Império. Estabelece bases para a investigação deste grupo de grande importância biostratigráfica no país, e descreve e nomeia diversas espécies. Recentemente Maria Martha Barbosa foi justamente homenageada com a descrição da espécie miocênica Hippopleurifera barbosae Ramalho, Távora, Tilbrook & Zágoršek, 2015.

Em 1979 a professora Maria Martha Barbosa concluiu o Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia, da Escola Superior de Guerra, juntamente com 126 homens e apenas mais uma mulher. Com duração de 42 semanas, este curso extremamente concorrido objetiva preparar civis e militares para o exercício de funções de direção e assessoramento de alto nível na Administração Pública, e tem equivalência a uma pós-graduação lato sensu. Após esta experiência, a professora Maria Martha Barbosa passa a se dedicar mais às atividades administrativas até a sua aposentadoria, em 1991 e, neste ínterim, chefiou o Departamento de Geologia e Paleontologia do Museu Nacional e foi assessora do 
ex-presidente do CNPq e proponente do Ministério da Ciência e Tecnologia, professor Athos da Silveira Ramos (1906-2002), quanto este atuou como presidente do Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Maria Martha Barbosa aos 84 anos, em 2015, durante sua derradeira visita ao Paço de São Cristóvão do Museu Nacional, instituição onde trabalhou por toda sua vida profissional. Acervo pessoal.

Além de enfrentar as inerentes dificuldades de uma mulher nas ciências e na Academia, Maria Martha Barbosa lutou no âmbito pessoal para, sozinha, criar duas filhas com garra e respeito, levantando-se contra quem ousasse discriminar a ela e a suas filhas, e levando sua vida com muito bom humor. Em reconhecimento a esta incrível trajetória pessoal e profissional, e pela representatividade de todos os pioneiros que há 60 anos deram início ao Congresso Brasileiro de Paleontologia, a Comissão Organizadora da edição so sexagenário tem imensa satisfação em ter a professora Maria Martha Barbosa como Presidente de Honra deste evento.


1 Barbosa MM. 1957. Redescrição do exemplar tipo de Lunulites pileolus White, 1887. Boletim do Museu Nacional, nova série, Geologia. 24: 1-6.
2 Barbosa MM. 1959. Steginoporella pirabensis n. sp. de briozoário da Formação Pirabas, Estado do Pará, Brasil. Anais da Academia Brasileira de Ciências, 31 (1): 109-111.
3 Barbosa MM. 1959. Descrição de um novo briozoário da Formação Pirabas. Boletim do Museu Nacional, nova série, Geologia. 29: 1-7.
4 Rolim IEF & Vingt-un Rosado J. 1998. Luciano Jacques de Moraes e o Rio Grande do Norte. Edição Especial para o Acervo Virtual Oswaldo Lamartine Faria. Fundação Vingt-un Rosado: Coleção Mossoroense. 148 p.
5 Sombrio MMO. 2007. Traços da Participação Feminina na Institucionalização de Práticas Científicas no Brasil: Bertha Lutz e o Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e Científicas do Brasil, 1939-1951. Dissertação, Programa de Pós-graduação em Política Científica e Tecnológica, Unicamp. 180 p.