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A importância
da Paleontologia


Bivalve cretácico coletado em depósitos da Formação Lachman Crags, Ilha James Ross, Antártica. Foto: Orlando Grillo, 2006.

 
A Paleontologia é o estudo dos organismos antigos. Este é o significado literal codificado nessa palavra e é, apropriadamente, a mais lembrada síntese do que os paleontólogos fazem: escavação, preparação, comparação, análise e catalogação das formas de vida preservadas como fósseis nas rochas por milhares, milhões e mesmo bilhões de anos. A cada fóssil e depósito fossilífero compreendido e contextualizado, os paleontólogos seguem correspondendo à missão embutida na etimologia de sua ciência. E o fazem, em sua maioria, por um misto de fascínio frente à genuína beleza dos fósseis, pela excitação intelectual da descoberta, pela aplicação desses dados na resolução de questões de ordem prática, e pelo deslumbramento perante o poder das ideias desenvolvidas pelos fundadores e grandes expoentes da área, tais como Cuvier, Darwin e outros. Ideias grandiosas e fecundas, como o conceito de extinção, a antiguidade relativa das rochas e a origem comum e evolução das espécies, foram inspiradas e sustentadas pelo entendimento do registro fossilífero, ao mesmo tempo que promoveram um sentido mais profundo e completo acerca desse mesmo registro.

A paixão e o ofício do paleontólogo não se limitam a produzir um bestiário de tempos imemoriais. A descoberta e a descrição de padrões e o entendimento dos processos da natureza são os frutos mais amplos deste trabalho. Por si, e aliados com cientistas de outros campos, os paleontólogos oferecem elementos de compreensão do ritmo e do modo de ascensão e queda das espécies, da natureza dos grandes eventos de extinção, e das complexas interações entre a biosfera, hidrosfera, atmosfera e litosfera ao longo do tempo geológico. Como mencionado certa vez pela tafônoma e paleoecóloga Anna K. Behrensmeyer, "os fósseis são a única fonte de informação sobre como a vida reagiu às crises". Desvendar o passado nos permite avaliar seriamente como os sistemas terrestres e oceânicos e os ecossistemas atuais respondem às perturbações nas dinâmicas que os governam. O impacto desse conhecimento para a compreensão do tempo presente revela que a importância da Paleontologia se estende muito além de uma eventual leitura simplista e romantizada de sua etimologia.

A Paleontologia nos ensina, por exemplo, que extinções e mudanças climáticas ocorreram muitas vezes ao longo da história da Terra, e os paleontólogos têm se saído bem em dimensionar essas crises. Modelos baseados no registro fossilífero (especialmente de invertebrados marinhos e mamíferos), e calibrados a partir de análises probabilísticas sobre filogenias moleculares, mostram que as taxas de extinção regulares ao longo do tempo geológico (background extinctions) variam de 0,023 a 0,135 extinções por milhão de espécies por ano, enquanto as taxas de especiação têm cerca de o dobro deste valor, variando de 0,05 a 0,2 eventos de especiação por milhão de espécies por ano1,2. Assim, mesmo com a ocorrência de alguns catastróficos eventos de extinção em massa, com os quais as taxas de extinção ampliaram-se em milhares de vezes e linhagens inteiras com seus genes e planos corpóreos exclusivos foram eliminados, os fósseis mostram um contínuo aumento líquido da biodiversidade ao longo do tempo geológico. Esse entendimento do passado nos permite colocar em perspectiva a onda de extinções que a biota moderna enfrenta, estimada em ser 1.000 a 10.000 vezes a taxa regular, e, portanto, similar em amplitude às extinções em massa do passado, incluindo as cinco maiores que encerraram os períodos Ordoviciano, Devoniano, Permiano, Triássico e Cretáceo. É ainda notável que o aumento na concentração de dióxido de carbono na atmosfera e a acidificação dos oceanos causados pela ação humana tendem a equiparar-se às grandes alterações ambientais naturais que desencadearam esses eventos de extinção em massa do passado.

Por um lado, este conhecimento pode insinuar que a crise ambiental corrente é apenas mais um pequeno episódio na história turbulenta da Terra, normalizando-a. Por outro lado, os dados paleontológicos mostram que a interferência humana tem rearranjado as biotas mundiais e alterado os ciclos ambientais em velocidades muito maiores do que em qualquer período precedente, superando a resiliência ecológica e a capacidade de adaptação e de repovoamento das espécies e invertendo, pela primeira vez na história do planeta, a relação extinção/especiação.

Esta perspectiva ecoa e reforça os alertas pioneiros do naturalista Alexander von Humboldt acerca das consequências potencialmente catastróficas de os seres humanos alterarem o mundo a seu bel-prazer. Dado que todas as sociedades dependem dos serviços ecológicos complexos fornecidos pelas interações próprias de um meio ambiente diversificado, a conservação dos recursos naturais é um movimento do maior interesse da maioria da população humana. Afinal, esta é uma questão de buscar qualidade, sanidade e longevidade para nós mesmos, na qual não deveria haver nenhuma necessidade de justificativa filosófica desse movimento na dicotomia natural/artificial. Humboldt, que escreveu que "tudo é interação e reciprocidade", e a moderna Ecologia, nos mostram que a livre eliminação de espécies representa não apenas uma perda quantitativa na biodiversidade, mas uma perda qualitativa na estruturação e complexidade dos ecossistemas e até o colapso dos mesmos, com a ruptura da rede de interações bióticas que os sustentam. E a Paleontologia atesta a repetição deste padrão a cada crise biótica das quais os fósseis são testemunhos. Reconhecemos, afinal, nossa espécie como uma força geológica, constatamos o advento da Sexta Extinção e, sob a perspectiva que a Paleontologia nos traz, consideramos a sério decretar o fim do Holoceno e alçar o Antropoceno* como época vigente do Período Quaternário. Esta é uma considerável ressignificação do tempo presente que emerge da investigação do passado.

O trabalho do paleontólogo também versa sobre o futuro. Na linha de frente da pesquisa lembramos que a inclusão de dados paleontológicos incrementa a confiabilidade dos esforços de modelagem de nicho ecológico, aponta estratégias de conservação e otimiza critérios de demarcação de áreas protegidas3. E fósseis são usados para testar a previsibilidade dos modelos climáticos, especialmente com respeito a cenários de aquecimento global. Em poucas palavras, o passado é a chave para projetar o futuro.

Ainda de maior importância, consideramos que a Paleontologia tem um papel a cumprir na educação científica das presentes e futuras gerações. Beneficiada pela arte e pela imaginação, a Paleontologia representa uma das áreas da ciência com maior apelo popular, e os dinossauros, em especial, estão entre os interesses intensos mais comuns da infância4. Poucas ciências equiparam-se ao potencial da paleontologia no despertar de vocações para a prática de profissões técnico-científicas. Portanto, quando bem explorada pedagógica e epistemologicamente nos espaços formais e não-formais de educação, bem como na imprensa e mídias sociais, a Paleontologia representa um atrativo recurso que desperta e aprofunda, direta ou indiretamente, uma série de habilidades para a proficiência em ciências: o desenvolvimento da capacidade de observação, de abstração, noções de parcimônia, causalidade, amostragem, margem de erro, análise crítica e pensamento lógico-dedutivo, entre outros. Essas são habilidades intelectuais fundamentais para a plena cidadania moderna e para a mitigação da influência de movimentos negacionistas e conspiracionistas e de posturas anti e pseudocientíficas que se insinuam cada vez mais no Brasil e no mundo.

Mas para que o fascínio que a Paleontologia exerce sobre as crianças não seja embotado ao longo da vida e mantenha-se disponível à educação científica continuada, é importante que não seja apresentada como um tema distante e arcano aos jovens e aos adultos. Daí a necessidade de elevar a atenção dada a este campo, e em várias frentes de ação: superar os erros que incendeiam o patrimônio nacional, desmontam instituições e estagnam projetos; replicar os acertos que fomentam bons projetos, criam condições para o desenvolvimento local da Paleontologia e reconhecem obras que divulgam nossos fósseis; e, especialmente, a necessidade da implantação de incentivos públicos e privados regulares para o resgate, o estudo, a proteção e a divulgação do extraordinário patrimônio fossilífero nacional. Esses são caminhos de baixo custo frente ao alcance de seus resultados acadêmicos e aplicados, e à contribuição da Paleontologia na alfabetização científica conceitual, procedimental e multidimensional. Temos, afinal, uma perspectiva mais completa das contribuições da Paleontologia para além de seu nome: Desvendar o passado, Ressignificar o presente, Edificar o futuro.



1 Jablonski, D. 2004. Extinction: past and present. Nature, 427, p. 589.
2 De Vos JM, Joppa LN, Gittleman JL, Stephens PR & Pimm SL. 2015. Estimating the normal background rate of species extinction. Conservation Biology, 29 (2): 452-462.
3 Lima-Ribeiro MS, Moreno AKM, Terribile LC, Caten CT, Loyola T, Rangel TF & Diniz-Filho JAF. 2017. Fossil record improves biodiversity risk assessment under future climate change scenarios. Diversity and Distributions, 23 (8): 922-933.
4 Alexander JM, Johnson KE, Leibham ME & Kelley K. 2008. The development of conceptual interests in young children. Cognitive Development, 23: 324-334.